quinta-feira, 10 de março de 2011

Mãos

O marquês de Sade voltou ao interior do vulcão em erupção
De onde veio
As belas mãos ainda rendadas
Os olhos de menina
E essa razão à flor de salve-se quem puder
Tão dele
Mas do salão fosforescente alumiado a vísceras
Jamais deixou de lançar as ordens misteriosas
Que abrem brechas na noite moral
Fendas por onde vejo
As grandes sombras estilhaçadas a velha crosta minada
Dissolver-se
Para que possa amar-te
Como o primeiro homem amou a primeira mulher
Em liberdade plena
A liberdade
Pela qual o próprio fogo se fez homem
E o marquês de Sade desafiou os séculos das suas
Grandes árvores abstratas
De acrobatas trágicos
Apanhados na teia do desejo

(André Breton)

Esta pequena delicadeza de Breton evidencia o seu amor pelas mãos de Sade, e me faz lembrar da paixão de Lennon pelas mãos de Jean Cocteau e Yoko se dizendo cansada de ver aquelas mãos aristocráticas em sua família oriental, e que ela preferia mesmo as mãos de John, “mãos operárias que sabiam me pegar tão bem”. Em Buenos Aires um poeta cego dizia ser mais um dos hábitos do tempo o fascínio pelas mãos.

(M.M.)